É irritante a forma como me relembram a minha adolescência, como se tivesse sido perfeita e recheada de prazer e luxo...
O prazer de passar os 3 meses de férias de Verão em casa da minha avó, não contactando com ninguém da minha idade, copiando desenhos de anatomia humana ao mais ínfimo pormenor, vendo TV até à exaustão ou lendo, lendo, lendo...
O luxo de "ter tudo", geralmente muito além do que as pessoas da minha idade tinham, não porque pedisse, mas porque me enchiam de "mimos". Só desses; dos outros, nem por isso.
A vantagem de ser filha única, neta única e sobrinha única, sem irmãos ou primos para brincar e ninguém com quem falar durante as férias a não ser os meus avós, a minha madrinha ou as paredes.
O privilégio de, por ser boa aluna, não me exigirem que ajudasse em casa, mesmo que eu quisesse, por exemplo, aprender a cozinhar.
E a benesse de ter ido passar uma semana ao norte com o meu namorado, com o consentimento dos meus pais... aos 21 anos...
E mais 5 dias à Beira Alta, com colegas da faculdade, com 22...
Tudo isto relembrado a pretexto daquilo que eu consinto que a I. faça, com 14 anos. A I. tem vida social. Sabe o que é relacionar-se com pessoas da idade dela fora do ambiente escolar. Sai à noite com os amigos, porque a mãe acha que não é por estar escuro que ela tem que ficar em casa. Acha que a mãe é uma aberração da Natureza, porque lhe conta como ansiava que as aulas começassem.
Mas agradece à mãe que ela não tenha memória curta.