segunda-feira, setembro 03, 2007

Inversão de papéis

Escovei-lhe o cabelo.
Dei-lhe a sopa, colher a colher, devagar e pacientemente (só faltou dizer: "esta é para o pai, esta é para a mãe"...).
Inventei mil histórias por cada garfada de frango com batatas que lhe consegui enfiar.
Ajudei-a a beber nos intervalos da fatia de pão-de-ló, que comeu dos meus dedos.
Há uns anos, muitos, era ela quem me punha à varanda e acompanhava com histórias o pesadelo das minhas refeições. Ou que tentava fazer-me gostar de cozinhar, retirando da sopa que estava ao lume, uma cenoura, uma batata, uma folha de couve e um alho, que juntava à água da panelinha das bonecas e punha a ferver. Depois anunciava ao mundo que tinha sido a Janeca a fazer a sopa.
E não havia pó para limpar, casa por arrumar, comida por fazer, que a impedisse de se sentar comigo no chão a brincar. Primeiro estava a sua Janeca.
Mãe a dobrar.
Tomara eu dobrar o tempo que ainda vou ter com ela.

4 comentários:

1entre1000's disse...

entendo que queiras viver cada momento ao segundo e prolonga-lo pela eternidade... adorei este post, simplesmente adorei este bocadinho de ti e da tua avó!

B-Good disse...

Tá difícil aceitar que esses bocadinhos têm necessariamente que ter um fim. Só espero que esse fim ainda esteja muito longe.

Alex disse...

... não consigo dizer nada, emocionaste-me. Vale um beijinho sem mais palavras?

B-Good disse...

Esses beijinhos valem mais que mil palavras. Obrigada