É conhecido o meu gosto por conduzir (e depressa). Costumo dizer que, nem em marcha-atrás, sei andar devagar.
Talvez a idade me tenha feito consciencializar dos perigos e acho que, na realidade, a Ponte Vasco da Gama é um perigo. Três faixas em que se anda acima dos 100 km/h, com bastantes veículos pesados à mistura (que raramente estão quietos com as patas e desatam a ultrapassar os ligeiros), mais os toinos que acham que o pisca ligado é livre trânsito para se atirarem para a faixa do lado, enfim...
Mas o que eu mais gosto mesmo, são os cromos. Aqueles que conduzem coladinhos a mim, quando vou, em plena hora de ponta, a 130/140/150, na faixa da esquerda. Todos do mesmo género: cabelinho com gel e óculos escuros, conduzem sozinhos ou com uma gaja ao lado a quem querem/precisam impressionar. Geralmente ao volante de Citroens C1, C2, C3 e Cn, Ibizas, Leons (ui, os Leons pretos com os médios ligados!), e charutos afins. Não interessa nada que o trânsito esteja compacto nessa faixa e a andar bem (para mim, a 150 na ponte, é andar bem); não interessa que, apesar da velocidade, se guardem as devidas distâncias de segurança em relação ao carro da frente (sendo que, àquela velocidade, reconheço que a segurança é relativa). O que interessa é amedrontar (?!). Encostam-se a mim, ligeiramente descaídos para a faixa do meio, como se pudessem ultrapassar pela direita (o que se calhar até seria possível, tendo em conta que são caixas de fósforos armadas em caixões voadores).
Hoje passei-me. O C3 comercial preto com o condutor típico: óculos escuros, gel e cara de macho latino. Encosta-se a mim, coladinho, coladinho, mesmo vendo que não havia hipótese de lhe dar passagem, quando a faixa do meio estava replecta. E continua. Máximos, desvio à direita, espalhafato com as mãos...
Aguentei, respirei fundo e deixei-o continuar a festa. Que durou mais de 3 ou 4 km...
Às tantas, o BMW que seguia à minha frente teve oportunidade de arrancar, porque o trânsito aliviou sem motivo aparente. Deixou-me uma margem de distância para poder fazer o que já me ferviam os pedais.
Travão de repente, ao fim de tanto tempo a aguentar os avanços do cromo, deve tê-lo deixado confundido.
A avaliar pelo tempo que ele demorou a recompor-se e ganhar velocidade depois de me ver zarpar, suponho que deve ter andado à procura dos tomates no asfalto.
Eu sei que não devia brincar com estas coisas, mas só espero que aquela besta pense duas vezes antes de se meter com a gaja da frente...




