No fundo, é como se ela estivesse sempre lá, sem que estivesse de facto.
Desde sempre que me lembro do seu mexer invisível dos cordelinhos da família, muitas vezes incómodo, porque tocava o obrigatório, em vez do desejado.
No Natal, era "obrigatório" ir lá almoçar; em cada aniversário, era "obrigatório" reunir a família. E a "obrigação" tornava-se rotina subtil e intrínseca, raramente contestada.
Aquele "quando é que eu vos vejo?" pleno de dependência de terceiros, por imobilidade involuntária e causada pela velhice, doía-me, mas raramente lho mostrava, tentando antes minimizar o problema com a loucura do dia-a-dia, que não me possibilitava ir lá a casa todos os dias, nem mesmo todas as semanas.
E os cuidados com "o menino", como se eu fosse uma mãe inexperiente ou irresponsável...
E as "desculpas" por gostar tanto de nós, que raiava a obsessão.
E porque não consigo aceitar que este fim era inevitável? Se até estava anunciado
há muito? Alguém me disse que nunca se supera a morte dos avós, porque é uma falha irreparável e o fim de uma geração. No meu caso, a minha avó era mais que isso: foi minha segunda mãe (e minha primeira até aos 4 anos), e faz falta para manter unida esta pequeníssima família, de que tenho tão pouco orgulho.
Só passou um mês e meio e o castelo de cartas desmoronou-se totalmente.
Fazes-me falta, Vó.
(ainda não consegui desatar a totalidade do nó, faltam algumas pontas...)