Às vezes gostava de saber o que me move. O que me faz correr todo o dia, marcar três cirurgias para a manhã e outra para a tarde, acorrer a imprevistos que espreitam a cada esquina ou me enfiam pelos olhos dentro, intervalar com um almoço em frente ao monitor do computador, papelada, reunião, papelada, correr mais um pouco e finalmente pegar no meu filho e chegar a casa, 38 km depois.
Continuar a acelerar, dar banho ao puto, fazer o jantar, arrumar a cozinha, deitar o puto e sentar-me a olhar para isto, com a expectativa de não sei o quê. Tentar explicar à minha filha, evitando berrar, que na fórmula resolvente, x é a incógnita e não pode ser substituída por 1 só porque assim dá certo.
Deixei de ler, de ver televisão, de olhar por mim.
E assim se passam as 2 ou 3 horas finais do dia, antes do deitar/levantar, deitar/levantar e render-me à cama do miúdo, de todas as noites.
Para começar tudo de novo, amanhã.
E quando der conta, passaram-se mais alguns anos.
Perdida.
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